Carta-manifesto sobre a “Adesão do Grão-Pará” ao território brasileiro.

Carta-manifesto sobre a “Adesão do Grão-Pará”

Palácio do Governo, local da assinatura da “adesão” (2009)

Do início da invasão e colonização européia até hoje, a data de 15 de Agosto de 1823 é uma das mais emblemáticas. São poucos os que na Amazônia conhecem este episódio ou compreendem o seu significado real, sobretudo nos estados do Amapá, Amazonas e Roraima (territórios que em 1823 também compunham o Estado do Grão-Pará). Nestes estados há um completo silêncio oficial sobre esta data, enquanto que no Pará existe um feriado – timidamente comemorado ou lamentado por alguns.

Em 15 de agosto de 1823 se encerra o colonialismo português na Amazônia,construído em 207 anos com muito sangue e suor dos povos desta terra. Mas o fim desteregime colonialista não significou o fim da subjugação e da humilhação para os povos daAmazônia; não significou o aceso à liberdade e à cidadania. Neste 15 de Agostocomemoramos os 196 anos do fim do colonialismo português e protestamos contra os 196 anos do início do colonialismo interno brasileiro na Amazônia.É preciso lembrar: antes de 1823 a Amazônia não possuía qualquer vínculo político, administrativo, jurídico ou cultural com o Brasil.

O Estado do Grão-Pará, que equivale hoje à quase toda a região norte do país, era uma colônia portuguesa autônoma, construída ao longo dos séculos com uma estrutura política e econômica singular.Uma experiência autônoma que formulou uma sociedade massivamente composta porindígenas e mestiços, que tinham como língua franca uma língua indigna de origemtupinambá, a Língua Geral da Amazônia – hoje conhecida como Nheengatu. Uma experiência que, com sua singularidade, possuía seus próprios conflitos, contradições eantagonismos sociais.Diferentemente das nações vizinhas da América, a “nação brasileira” não surgiupor meio de uma guerra nacionalista empreendida pelos seus povos contra a metrópole, mas por uma aglomeração de povos com identidades em formação sob uma mesma bandeira.

O Brasil surgiu como um Império, autoritário e centralizador, que acreditava ter o direito de anexar toda a América portuguesa e assim o fez. Em 15 de Agosto de 1823, um ano após a independência do Brasil, o Grão-Pará passa a fazer parte doImpério, através de um golpe.

A Amazônia fez a “adesão pacífica” ao Brasil sobameaça de bloqueio naval e bombardeio à cidade de Belém.252 de caboclos mortos foi o presente dado pelo Império do Brasil para inaugurar a nova ordem política e social no Grão-Pará ainda 1823 – em um episódio que ficou conhecido como Tragédia do Brigue Palhaço e que fomentou anos depois a revolução dos povos da Amazônia. A anexação do Grão-Pará ao Império resultou na perda do poder sobre o território para a elite local e na continuação das hierarquias sociais e das injustiças para o resto da população pobre. O Grão-Pará deixou de sercolônia para se tornar uma província periférica, alienada do seu futuro.A “adesão do Pará”, portanto, foi o prelúdio para as novas tragédias que estavam por vir. A adesão não pôs fim efetvamente ao colonialismo, pelo contrário, o renovou eacirrou ainda mais subjugação, a exploração, a humilhação, a violência e a negação daautodeterminação, da cidadania e da humanidade.

Apenas trocamos de metrópole, de Lisboa para o Rio de Janeiro.Mas o Brazil de hoje não é mais o Brazil Imperial, iso é verdade. Mas a lógica darelação entre a Amazônia e o estado Brasileiro foi inaugurada ali no golpe da Adesão iesta lógica tem se perpetuado até hoje. Foi este golpe que deu início ao proceso deincorporação e integração da Amazônia ao Brasil, de construção de uma relação dedependência comercial e de esploração dos recursos da terra e da floresta, bem como dorecurso humano.O que nós estamos a propor hoje é a construção de uma consciência critca sobreo proceso de anexação i integração da Amazônia.

É fundamental que tenhamosconsciência sobre o porquê que nós amazônidas, viemos a fazer parte do Brasil. E mais importante ainda é ter a consciência sobre o que este trajco epzódio significou e significa no prezente para a Amazônia e para noz, amazônidas!As instituições politcas da Amazônia há muito tempo aceitaram a dominação inaugurada e imposta pelo Império e não mais ouzam questionar a lejtimidade desa condição.

A maioria de nós sequer conhece verdadeiramente ese episódio e suasimplicações, e tem a prezença da Amazônia no Brasil como natural. Mas nós, descendentes e herdeiros dos cabanos e dos povos originários que entregaram suas vidas pela defesa desta terra e da nosa dignidade, apoz décadas de rezignação e intimidação, ousamos mais uma vez levantar a voz contra este acidente trajco que foi a “adesão ” do Grão-Pará, que na verdade não foi adesão , mas sim anexação, invasão, violação agressão, etc.

Não houve adesão.Não tenhamos medo de contestar, de sonhar e de lutar!

A Amazônia é dos Amazônidas!

Asociação Cultural Povos da Amazônia



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